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29.10.2021

Alexander Klein e o Movimento Moderno – A exacerbação da pré-determinação funcional

“(…) es posible valorar la idoneidad de una planta antes de su ejecución. Así, por ejemplo, recorridos de circulación breves pero intricados ocasionan un desgaste de energías físicas […], los cruces de circulaciones imposibilitan el desarrollo simultáneo y sin interferencias de las principales actividades que se realizan en la vivienda: cocinar-comer, dormir-lavarse, trabajar-descansar. Los espacios de comunicación demasiado grandes y los recorridos demasiado largos que se derivan de una desfavorable distribución de la planta provocan un aumento de la superficie.”

(Klein, p.33) [1]

Período pós primeira Guerra Mundial, no qual surge a necessidade de se construir de forma massiva e o mais rapidamente possível. A habitação tem de atingir a máxima eficiência – Klein fará um estudo exaustivo acerca de como se chegar às dimensões mínimas para o correcto funcionamento de cada espaço. A sua metodologia será apresentada pela primeira vez em Paris, em 1928 e no ano seguinte no II CIAM, de Frankfurt. Em 1930 o governo do Reich decide financiar a construção de habitação, e estabelece que a área da unidade habitacional deverá andar entre os 32 e os 45m².

Mostra-se de seguida o exemplo da valoração de uma habitação.Os modelos na figura 1 correspondem a plantas de unidades de habitação comuns, de 3 e de 3 camas e meia. Funcionalmente, apresentam os seguintes erros, segundo Klein:

– na primeira planta, os espaços não estão agrupados de acordo com as suas funções: não há uma clara ligação entre casa de banho e quartos – estas duas funções que constituem a parte da noite, não estão juntas. A colocação errada do quarto cria percursos que se cruzam quando deveriam ser independentes;

– na segunda planta não há também um bom agrupamento dos espaços; estes não seguem a separação entre espaços de dia para um lado e espaços de noite para o outro; a casa-de-banho não está localizada próxima aos quartos, o que faz com que haja o cruzamento de percursos da zona de noite e da zona de dia.

 

Figura 1 – Alexander Klein – plantas que, a nível funcional, de acordo com Klein, apresentam erros.

Os dois modelos da figura 2 correspondem à correcção feita por Klein dos modelos apresentados na figura 1.

 

Figura 2 – Alexander Klein – valoração funcional das plantas apresentadas anteriormente.

Na primeira planta (figura 2, lado esquerdo), Klein divide a unidade habitacional em duas zonas: a de dia (com a sala-de-estar e a cozinha) e a de noite (com os quartos e a casa-de-banho). A sala-de-estar e o hall de entrada formam um mesmo espaço, podendo estes ser separados através de uma cortina ou de uma porta envidraçada. O hall faz a separação entre as duas zonas, e, a partir dele, pode-se chegar independentemente a elas. Não há cruzamento de percursos de zona de dia e zona de noite. Há uma redução da área da cozinha e um aumento da área da sala-de-estar. As camas estão colocadas na parte mais interior dos quartos, ou seja, na parte mais calma. O mobiliário está concentrado, não havendo peças soltas. A instalação sanitária é reduzida à mínima dimensão possível, contendo somente um lavatório, uma sanita e uma banheira.

A segunda planta (figura 2, lado direito) corresponde a um aperfeiçoamento da primeira através da análise gráfica – altera a disposição do mobiliário no quarto dos pais; cria uma ligação directa entre o quarto dos pais e a zona de refeições.

Klein faz então a separação dentro da unidade de habitação dos binómios cozinhar/comer; dormir/tratamento do corpo; ócio/descansar. Para além disso, observa-se ainda uma divisão da habitação em duas partes mais gerais: a parte privada/noite (constituída pelos quartos e casas de banho) e a parte mais pública/dia (constituída pela sala de estar, sala de jantar e cozinha).

Klein analisa a funcionalidade da unidade habitacional através do método dos grafos, que estuda várias relações, sendo a mais importante a que estuda os diferentes percursos e diferentes intersecções que o habitante poderá fazer dentro da habitação.

Nas figuras 3a e 3b Klein mostra quais os problemas funcionais da habitação em análise – critica o facto de os percursos dos binómios se intersectarem.

Nas figuras 3c e 3d está representado um correcto desenho dos percursos, ou seja, da disposição das funções dentro da habitação, uma vez que os binómios não se intersectam: da entrada pode-se ir directamente ou para a zona dos quartos+instalações sanitárias – binómio dormir/tratamento do corpo – ou para a zona da cozinha – binómio cozinhar/comer – ou ainda para a sala de estar – binómio descansar/ócio.

 

Figura 3a – exemplo de habitação com um incorrecto nível organizacional/funcional – percursos de noite cruzam-se com os percursos de dia.

Figura 3b  – exemplo de habitação com um incorrecto nível organizacional/funcional – percursos de noite cruzam-se com os percursos de dia.

 

Figura 3c – exemplo de habitação com um correcto nível organizacional/funcional – percursos de noite cruzam-se com os percursos de dia.

Figura 3d – exemplo de habitação com um correcto nível organizacional/funcional – percursos de noite cruzam-se com os percursos de dia.

Alexander Klein – análise de percursos e cruzamentos dentro da habitação de acordo com o método dos grafos (vermelho = percursos de dia / azul = percursos de noite).

Há uma nova leitura do espaço da habitação: tendo de ser reduzido à dimensão mínima possível, Klein acredita que tem de haver um máximo de funcionalidade, tanto dentro de cada compartimento como nas próprias relações entre compartimentos.

 

 

Figura 4 – Alexander Klein – divisão da casa em duas zonas – dia (a cinza) e noite (a azul).
Estes binómios redefinem a arquitectura da habitação: o interior doméstico está agora organizado segundo bolsas (cada bolsa corresponde a um binómio), independentes entre si, cujos percursos não se devem intersectar. A habitação está dividida em duas partes: a zona de dia (que corresponde à cozinha, espaço de refeições e sala de estar) e zona de noite (que corresponde aos quartos de dormir e à casa de banho). Tudo reduzido ao mínimo, tanto os espaços como as circulações. Há, consequentemente, uma limitação e diminuição da possibilidade de apropriação do espaço por parte do ocupante.

A metodologia de Klein foi a sua resposta às necessidades de construção massivas e imediatas. Mas são estas as regras que ainda hoje persistem na maior parte da arquitectura da habitação colectiva: a qualidade na habitação é entendida enquanto sinónimo de funcionalidade.

Enquanto arquitectos. Reflectamos acerca da forma como estamos a conceber o uso espacial da habitação.

[1] Tradução livre: “(…) é possível avaliar-se uma planta antes da sua construção. Assim, por ex., espaços de circulação pequenos mas intrincados levam a um desgaste de energias físicas (…), as intersecções de circulações impossibilitam o desenrolar simultâneo e sem interferências das principais actividades que se realizam na habitação: cozinhar-comer; dormir-lavar; trabalhar-descansar. Os espaços de comunicação demasiado grandes e os corredores demasiado largos que derivam de uma distribuição em planta desfavorável provocam um aumento da área.”

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Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

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