Saraiva+Associados

21.03.2024

A propósito do Prémio Pritzker 2024

Miguel Saraiva • CEO & Founder and Leader Architect S+A

Há cerca de duas semanas foi anunciado o Prémio Pritzker 2024, que constitui o mais importante prémio mundial da Arquitetura. O vencedor do prémio deste ano foi o arquiteto japonês Riken Yamamoto, com a respeitosa idade de 78 anos.
Apesar de ter nascido em Pequim, na República Popular da China, em 1945, Riken Yamamoto mudou-se nesse mesmo ano para Yokohama, no Japão, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, assumindo-se como arquiteto japonês.
Nos 45 anos de história do Prémio Pritzker, os arquitetos japoneses foram os que ganharam a distinção por mais vezes, sendo Riken Yamamoto o nono arquiteto a vencer o galardão.
Enquanto cidadão, e com especial ênfase desde que concluí os meus estudos universitários em Arquitetura, tenho acompanhado com especial interesse e entusiasmo os trabalhos dos diversos premiados, que constituem sempre uma fonte de conhecimento, inspiração e melhoria da prática profissional.
Criado em 1979, o Prémio Pritzker é atribuído anualmente pela Fundação Hyatt, com sede em Chicago, nos Estados Unidos, sendo uma fundação de carácter filantrópico, criada pela família Pritzker.
A família Pritzker constitui uma das famílias mais ricas da América, estando ligada ao setor da hotelaria e a diversas outras áreas. Nicholas Pritzker (1871-1957), patriarca da família Pritzker, era um imigrante judeu da Ucrânia. Não deixa de ser curioso que um Prémio que visa contribuir generosamente para a melhoria da situação dos Homens e da Humanidade, tenha tido na origem como patriarca da família uma personalidade da Ucrânia, país presentemente fustigado pela Guerra, e onde tanta falta faz um pouco de Humanidade.
O Prémio Pritzker é atribuído anualmente para homenagear um arquiteto ou uma equipa de arquitetos vivos, cuja obra reflita uma combinação de talento, visão e empenho, e que constitua um contributo significativo para a humanidade e para o ambiente.
O Prémio Pritzker é usualmente referido como o Prémio Nobel da Arquitetura. Instituído em 1901, e referência incontornável na vida da comunidade internacional, o Prémio Nobel reconhece individualidades que realizam valiosos contributos para o bem da humanidade, nas categorias da Física, Química, Fisiologia (Medicina), Ciências Económicas, Literatura e Paz.
Falando em Prémios e em Arquitetos, e a título de curiosidade, o Prémio Nobel foi já atribuído a um Arquiteto, o ativista de direitos humanos argentino Adolfo Pérez Esquível, que recebeu o Prémio Nobel da Paz em 1980.
Regressando ao Prémio Pritzker de 2024, e apesar da sua idade, Yamamoto continua a exercer a prática profissional de arquiteto, dispondo de obras construídas no Japão, na República Popular da China, República da Coreia e na Suíça. O arquiteto tem efetuado trabalhos de natureza diversa, incluindo planeamento urbano, empreendimentos habitacionais, escritórios, edifícios universitários e escolas, bibliotecas, museus e outros edifícios.
Para além do Prémio Pritzker, Yamamoto recebeu inúmeras outras distinções ao longo da sua carreira, sendo destacado nas suas obras o elemento transparência, na forma, no material e na filosofia.
Conforme é referido na página oficial do Prémio Pritzker, Yamamoto é um profundo defensor da vida comunitária, referindo que os membros de uma comunidade deveriam sustentar-se uns aos outros. Refere ainda que “os grandes projetos habitacionais também incorporam elementos relacionais, garantindo que mesmo os residentes que vivem sozinhos não vivam isolados”.
Conforme refere Yamamoto, “a abordagem arquitetónica atual enfatiza a privacidade (…). No entanto, ainda podemos honrar a liberdade de cada indivíduo enquanto vivemos juntos no espaço arquitetónico (…), promovendo a harmonia entre culturas e fases da vida (…). Uma das coisas de que mais precisamos no futuro das cidades é criar condições através da arquitetura que multipliquem as oportunidades para as pessoas se reunirem e interagirem”.
O júri do Prémio Pritzker deste ano foi presidido pelo arquiteto chileno Alejandro Aravena, que tive o privilégio de receber recentemente numa Conferência realizada no meu atelier, também ele Prémio Pritzker de 2016, e uma referência incontornável no mundo da Arquitetura, nomeadamente nas áreas de habitação de baixo custo.
Conforme refere Alejandro Aravena a propósito de Yamamoto, “ele é um arquiteto tranquilizador que traz dignidade à vida quotidiana. A normalidade torna-se extraordinária. A calma leva ao esplendor.”
Por outro lado, Tom Pritzker, presidente da Fundação Hyatt, que patrocina o Prémio, refere ainda que “Yamamoto desenvolve uma nova linguagem arquitetónica, que não apenas cria espaços para as famílias viverem, mas cria comunidades para as famílias viverem juntas (…) as suas obras estão sempre conectadas à sociedade, cultivando a generosidade de espírito e honrando o momento humano.”
Como sabemos, os Prémios têm sempre uma componente política, no sentido em que os seus promotores trazem à colação temas atuais que pretendem ver abordados e discutidos. E não há dúvida de que a necessidade de dispormos de sociedades harmoniosas, focadas na ideia de vida em comum, apesar das diferenças de identidade e de condição socioeconómica dos seus habitantes, são temas estruturantes e essenciais nas sociedades em que vivemos.
A Solidariedade e o apoio a quem mais necessita constitui um enorme desafio das sociedades modernas. Está em causa a promoção de uma abordagem centrada nos direitos humanos e na realização da dignidade da pessoa humana, facilitando a inclusão e a integração de todos na sociedade, reduzindo as desigualdades.
Em tempos de enormes desafios, como os que vivemos, assume especial relevância questionar e ponderar a forma como estamos a criar e a planear territórios inclusivos. Neste contexto, é essencial a resolução da importante questão da habitação, centrada nas pessoas, por forma a que ninguém tenha de permanecer na rua por ausência de alternativas. É fundamental o desenvolvimento de mais habitação a preços compatíveis para todas as camadas sociais.
A Habitação é desde há muitos anos uma área muito querida na minha atividade, e onde a Arquitetura tem por missão clara melhorar a experiência de vida e o conforto das pessoas, interagindo com a sua envolvente, de forma mais sustentável.
É igualmente relevante aferir se os instrumentos disponíveis de financiamento e de planeamento são os adequados às necessidades existentes. As novas reformas legislativas, como o Simplex Urbanístico (Decreto-Lei n.º 10/2024, de 8.01.2024), visam constituir um contributo útil neste desafio. Com efeito, a legislação que entrou recentemente em vigor pretende continuar a avançar em matéria de habitação, criando condições para que exista mais habitação disponível a custos acessíveis. Concretiza ainda um dos eixos fundamentais das medidas previstas no âmbito do Programa «Mais Habitação», respondendo à necessidade de disponibilizar mais solos para habitação acessível, mas também simplificar os procedimentos na área do urbanismo e ordenamento do território.
É fundamental que o novo Governo tenha a capacidade de implementar medidas eficazes para resolver o problema habitacional, para que todos os portugueses tenham acesso a habitação digna.

Miguel Saraiva
CEO & Founder and Leader Architect S+A

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